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Acervos digitais de cultura: hóspedes indesejados nas mídias sociais, donos da casa na Web Social

Uma reflexão sobre soberania digital, memória cultural e o papel das instituições de memória em um momento decisivo para a internet

Há uma crise silenciosa acontecendo com a memória cultural digital. Ela não aparece nos noticiários. Não gera manifestações. Mas seus efeitos são irreversíveis.

Segundo o Pew Research Center, 38% das páginas web que existiam em 2013 já não são mais acessíveis uma década depois. Não estamos falando de sites pessoais abandonados. Estamos falando de registros históricos, produções artísticas, documentos culturais — memória coletiva que simplesmente evaporou.

O caso mais emblemático para nós é o Orkut — em 2007, 79% dos usuários de redes sociais no Brasil estavam lá — e seu desaparecimento ainda reverbera um silêncio perturbador. Nos EUA também acontece: recentemente o Myspace deletou uma estimativa de 53 milhões de arquivos de música de seus servidores, o que significam décadas de produção musical independente perdidas numa decisão corporativa. Não foram acidentes. Foi a lógica do sistema funcionando exatamente como foi projetada:

“quando a informação perde seu valor monetário percebido, os players comerciais não têm incentivo para mantê-la acessível.”

Securing Digital Rights for Libraries: Towards an Affirmative Policy Agenda for a Better Internet (2022)”.

Este post é inspirado no artigo “Acervos digitais de cultura: hóspedes indesejados nas mídias sociais, donos da casa no Fediverso“, apresentado no XV Seminário Internacional de Políticas Culturais.

Começamos agora a experimentar o uso do termo Web Social.

A Declaração para Proteção de Instituições de Memória documenta esses riscos com evidências. E o próprio Internet Archive — a maior iniciativa de preservação digital da web — está hoje ameaçado por batalhas judiciais relacionadas aos seus esforços de preservação. Plataformas comerciais nunca foram, e nunca serão, guardiãs confiáveis da memória cultural.

Hóspedes numa casa que não é nossa

Diante da necessidade de alcançar públicos, museus, arquivos e bibliotecas (também universidades) migraram em massa para as grandes plataformas. A lógica era compreensível — ir onde o público está. Mas essa decisão teve um custo que raramente discutimos com a franqueza que merece.

Nas mídias sociais comerciais, as regras da casa mudam sem aviso. Algoritmos são alterados da noite para o dia. Contas são moderadas ou encerradas arbitrariamente. Políticas de uso são reescritas unilateralmente. Uma instituição que construiu durante anos uma audiência de centenas de milhares de seguidores pode ver seu alcance despencar — ou sua conta simplesmente desaparecer — sem qualquer recurso real.

Somos hóspedes. E, muitas vezes, hóspedes indesejados.

Há ainda uma ironia perturbadora nesse cenário: se empresas de inteligência artificial podem invocar o fair use para “raspar” o conteúdo da internet e treinar seus modelos comerciais, certamente instituições de memória merecem garantias equivalentes para preservar o patrimônio cultural digital e cumprir sua missão de interesse público. O desequilíbrio é evidente — e revela que as regras do jogo foram escritas para outros jogadores.

Soberania digital não é luxo — é missão

O conceito de soberania digital pode soar técnico. Mas para instituições culturais ele tem um significado muito concreto: controle sobre os dados do acervo, autonomia sobre as regras de acesso, e garantia de continuidade independente de decisões corporativas.

Quando um museu publica seu acervo exclusivamente no Instagram, quem é o dono daquele conteúdo? Quando uma biblioteca constrói sua comunidade apenas no Facebook, o que acontece com aquela rede se a plataforma mudar suas políticas — ou simplesmente deixar de existir?

A Declaração de Aruba é direta: o direito de coletar e preservar conteúdos de acesso aberto na internet é crucial para que museus, arquivos e bibliotecas (e também universidades) sigam cumprindo suas funções de interesse público em relação à memória digital. Não é uma preferência tecnológica. É um princípio fundamental.

A soberania digital de instituições culturais opera em três dimensões que se reforçam mutuamente.

  • Preservação — quem garante que o conteúdo existirá amanhã?
  • Acesso — quem controla quem pode ver o quê, e em quais condições?
  • Identidade institucional — quem define a narrativa sobre o patrimônio?

Sem soberania nessas três dimensões, não há preservação real da memória cultural. Há apenas uma ilusão de presença digital, e grave prejuízo para as políticas digitais de cultura.

Na Web Social, somos donos da casa

O cenário atual no universo das redes sociais, somado ao momento propício, nos levou a imaginar que uma política pública para o campo poderia causar um efeito demonstrativo relevante. Por isso o Ibram entende que é oportuno a realização de um experimento com redes sociais federadas, e museus — instituições de memória.

A Web Social — uma constelação de redes descentralizadas como Mastodon, Pixelfed e PeerTube, baseadas no protocolo aberto ActivityPub — oferece exatamente o que as plataformas comerciais nunca oferecerão: a possibilidade de cada instituição operar seu próprio servidor, com suas próprias regras, seus próprios dados e sua própria identidade. E ainda assim se comunicar com toda a rede.

Ainda que cada instância da Web Social tenha sua própria gestão, identidade e regras, todas podem interagir entre si, formando um ecossistema diverso, interconectado e cooperativo.

Nas mídias sociais comerciais, a plataforma é a dona. Na Web Social, a instituição é a dona da casa.

Para museus, arquivos e bibliotecas, isso se traduz em algo concreto: controle total sobre os metadados e conteúdos do acervo; interoperabilidade com outras instituições e com o público; independência de algoritmos opacos; e alinhamento com princípios de acesso aberto e bem público.

Com a existência do protocolo público e a possibilidade da gestão das bases de dados pelas próprias instituições, podemos começar a lidar com a memória digital de maneira institucional. Este desenvolvimento abre considerável campo de atuação para os profissionais da ciência da informação, museólogos, arquivistas e bibliotecários, e potencializa a inovação nas interfaces digitais das instituições de memória.

Museus como protagonistas — não como retardatários

Há uma visão que merece ser levada a sério: instituições culturais não deveriam chegar à Web Social como retardatárias, seguindo uma tendência tecnológica. Elas deveriam chegar como protagonistas.

A visão de prioridades de “Meu Sonho para o Fediverso”, de Elena Rossini (“I have a dream” uma visão da Web Social Aberta daqui há 5 anos), aponta exatamente isso: museus, arquivos e bibliotecas têm papel central na popularização da Web Social — não como seguidoras de tendências, mas como âncoras de confiança e referência para o público.

Por quê? Porque possuem credibilidade e legitimidade pública consolidadas ao longo de décadas. Porque têm missão explícita de preservação e acesso ao patrimônio — e a Web Social é um meio natural para cumpri-la. Porque podem atrair comunidades ao redor de conteúdo cultural de qualidade. E porque podem criar redes federadas entre si — museus, arquivos e bibliotecas (também universidades) conectados por protocolos abertos, compartilhando acervos e audiências.

O Ibram entende que os museus brasileiros têm uma contribuição a dar na reflexão sobre o futuro do ambiente digital, e esta iniciativa com redes sociais descentralizadas sinaliza um caminho que propomos explorar.

Quando um museu de referência chega ao Fediverso, ele não apenas resolve seu próprio problema de soberania digital. Ele legitima o espaço, atrai seu público, e demonstra que é possível ter presença digital de qualidade fora das grandes plataformas. O primeiro experimento que fizemos foi a publicação direta dos posts do blog da Brasiliana no ambiente das redes sociais descentralizadas, e o resultado em termos de aumento na visitação foi surpreendente. [Apenas imagine o papel que a rede de universidades públicas brasileiras pode desempenhar neste ambiente.]

Esse efeito de demonstração é poderoso. E é exatamente o tipo de liderança que a Web Social precisa para crescer além dos círculos tecnológicos.

Da reflexão à ação

A democracia, e toda a humanidade, perdem quando interesses movidos exclusivamente pelo lucro superam as considerações de interesse público sobre o acesso à informação, ao conhecimento e à cultura. Essa não é uma afirmação retórica. É uma descrição do que está acontecendo agora, em tempo real, com a memória cultural digital.

Na perspectiva da política pública, o estabelecimento de um ambiente social de difusão de informações na web que seja independente de plataformas centralizadas é crucial para o funcionamento sustentável das redes de informações e conhecimento de interesse público.

Existem passos concretos que qualquer instituição cultural pode dar hoje. Auditar a dependência atual de plataformas comerciais — mapear onde estão os conteúdos, e o que aconteceria se cada plataforma desaparecesse amanhã. Experimentar a Web Social — criar uma instância, publicar acervos, conectar-se com outras instituições. E articular — apoiar iniciativas como a Declaração de Aruba, participar de redes como a Alquimídia, a WebSocialBR e a Organica.social, conectar-se com quem já está nesse caminho.

Trata-se de um início, um experimento singelo mas que pode carregar grande significado. Torcemos para que seja o início de um movimento transformador na maneira como nós, como pessoas e como instituições, nos conectamos online, e que venha a proporcionar um aperfeiçoamento em nossa relação fundamental com o digital e com a web.

A Web Social precisa de instituições culturais. E as instituições culturais precisam da Web Social.

Acervos digitais de cultura merecem uma casa própria. E a Web Social é essa casa.

“quando a informação perde seu valor monetário percebido, os players comerciais não têm incentivo para mantê-la acessível.”
“Securing Digital Rights for Libraries: Towards an Affirmative Policy Agenda for a Better Internet (2022)”

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