
uma série de eventos onde tocávamos Beatles sem parar..
O colega Philippe Seabra, lendário guitarrista da Plebe Rude, realiza o ótimo programa Capital do Rock na Rádio Justiça, e no início deste ano fez um programa especial com a Banda 69, na qual tenho orgulho de ter participado.
Para quem quer conhecer essa banda dos anos 80 em Brasília, este é o melhor review!
E também uma ótima lembrança do período em que o Rock Brasiliense mobilizou uma galera em torno daquela figura marcante que é Renato Manfredini Jr., o Russo, para definir Brasília culturalmente.
Mais abaixo vai a transcrição das falas de Philippe Seabra, a lenda, onde ele faz uma breve apresentação da Banda 69 no contexto das bandas de rock de Brasília nos anos 80, e sua ligação com Renato Russo e o Aborto Elétrico.
“Fala, pessoal. Eu sou o Philippe Seabra, guitarrista e vocalista da Plebe Rude, produtor musical e de trilhas sonoras, e idealizador e curador da Rota Brasília-Capital do Rock. Estou aqui na Rádio Justiça 104,7 FM com o programa Capital do Rock, um passeio pelas influências nacionais e internacionais que ajudaram a inspirar o rock de Brasília a se tornar a essência fundamental do rock brasileiro.
Hoje o programa Capital do Rock traz uma banda de Brasília da década de 80 que começou a carreira praticamente junto com o Aborto Elétrico, nos corredores da Universidade de Brasília — a Banda 69.
O nome, apesar de sugestivo, não é nada disso. Na verdade, o nome veio do ano que os Beatles terminaram, que diz muito a respeito do som que faziam. Até uma versão de Mr. Postman dos Beatles, intitulada “Seu Carteiro”, cantavam, com direito a toda a harmonia vocal. É mais uma demonstração de como o punk de Brasília era benigno: eles acompanhavam os punks nos shows na universidade, tudo na maior paz.
Eles não tinham nada a ver com os punks. Talvez a coisa mais punk que tinham era o incansável baterista e força motriz da banda, Militão, que conseguia dar uma cabeçada no prato no final das viradas, e o baixista lead vocal, Marcelo, que sabe-se lá porque volta e meia tocava com a transgressora mochila nas costas. O tecladista Rodrigo Lopes, hoje um respeitadíssimo produtor de discos e vencedor de vários Grammys latinos e um Grammy americano (olha aí!), ficava doido porque eu sempre chegava para tocar no seu teclado ali montado durante shows da Arquitetura na UnB, mas com o meu “derrière” [‘traseiro’, em francês] sentado em cima dos teclados enquanto que eu solava na guitarra.
Banda 69, com Papo Sério, Brasília by Night e Maria Gasolina.

Você está ouvindo “Capital do Rock”, apresentação: Philippe Seabra.
Hoje o programa “Capital do Rock” traz o som alegre e despretensioso da Banda Meia Nove, uma banda de Brasília que começou tocando nos corredores da UnB, acompanhando uma também nascente Aborto Elétrico.
O contato do Militão com a “tchurma”, termo carinhoso que o Renato Russo usava para descrever os membros e adjacentes das primeiras bandas punk de Brasília, foi no primeiro semestre da UnB, quando fui colega do André X, fundador da Plebe Rude, nas turmas que todos os calouros compartilhavam no curso básico de humanas.
A Banda 69 estava começando e passara a acompanhar as bandas punks nos shows na universidade, apesar do som completamente oposto, mais para Beatles do que qualquer outra coisa. Mas a convivência era pacífica e era mais um exemplo do punk benigno que era o punk de Brasília.
Herbert Vianna, uma vez, chamou a Banda 69 de “os Beatles de Brasília” e, com o trabalho maravilhoso de harmonia vocal que faziam, até chegou a impressionar o Renato Russo, que no show de estreia da Banda 69 ficou admirado.
Na época em que no Brasil terminava um ciclo político pesado, ser alegre, ser irreverente, criticar com bom humor e fazer festa era uma atitude política também, atitude que não faltava na turma da Banda 69.
Banda Meia Nove com 434, Clotilde no Banho e Negação.

Hoje, o programa Capital do Rock traz o som inconfundível da Banda 69, banda que nasceu praticamente junto com o Aborto Elétrico em 1980. A Banda 69 tocou a partir de 81 na UnB, em memoráveis festas na Faculdade de Arquitetura, onde dividiu o palco com o Aborto Elétrico, a Blitz 64 e a Plebe Rude. Isso rendeu um convite para um show no Bar Universitário em Goiânia, junto com o Aborto Elétrico; que foi a primeira vez que o rock oitentista de Brasília saiu do DF.
Em 1983, a Banda 69 participou da primeira Temporada de Rock Brasiliense no Teatro ABO, aquele mesmo clássico que reuniu Legião Urbana, Capital Inicial, ainda com a Heloísa Helena nos vocais, a Plebe Rude e o XXX, futuro Escola de Escândalo. Só que eles fizeram um show solo, num final de semana separado dos punks, mas com a casa completamente lotada em três sessões memoráveis.
O encontro de Marcelo Carvalho Oliveira, baixo e voz; Murilo Carvalho, guitarra e voz; Rodrigo de Castro Lopes, piano e sintetizador e voz; e Militão Ricardo, bateria e voz, aconteceu em 1980, logo após o Festival de Música do Colégio Dom Bosco, onde todos estudavam. A Banda 69 chegou a uma gravadora grande através do Léo Jaime, que não só levou a fita demo para sua gravadora, como acabou produzindo o disco de estreia do grupo pela gravadora CBS, que acabou encerrando a carreira em 1986, com Marcelo e Rodrigo. Murilo saiu em 84 e o Militão em 85. Apesar de não existir mais, a Banda 69 deixou saudade e tem seu lugar no panteão das grandes bandas do rock da Capital Federal. E olha aí, são todos amigos até hoje, coisa rara no mundo do rock and roll.
Banda 69, com O Policial e a Manifestante, Disputa Sobre Rodas e Negação, gravado ao vivo, realizado no único show de reunião da Banda 69 com a formação original em 2013, com a participação especial de Miguel Peixe, filho do guitarrista José Murilo Carvalho, na guitarra solo.

Você está ouvindo “Capital do Rock“, apresentação: Philippe Seabra.
Lembra do filme “Quase Famosos“? Ao herdar os discos da irmã mais velha, o irmãozinho encontra o recado que dizia: “Acenda uma vela ao escutar Tommy e The Who, e você verá seu futuro inteiro.” É mais ou menos isso. Obrigado pela atenção e, por que não, pela audiência. Até a semana que vem, onde continuarei a mostrar as músicas que ajudaram a inspirar o rock de Brasília a se tornar o alicerce fundamental do rock brasileiro.



