
Para refletir sobre o viés cultural do ambiente digital, trago a apresentação de Douglas Rushkoff no evento SXSW, em Austin, Texas (EUA), em março de 2010, onde o ativista revela, com brilhantes referências culturais, o código oculto que governa a nossa era digital. Rushkoff estimula a audiência a procurar entender as influências disfarçadas que formatam o ambiente tecnológico que nos cerca, de forma a tornar cidadãos em participantes ativos, e não somente usuários passivos. Apesar de realizada há 15 anos atrás, a conferência se mostra extremamente atual para compreendermos o que está em jogo nestes tempos onde “Inteligência Artificial” domina o debate no ambiente digital.
“Quando olho para o mundo, quando olho para a economia, ou para a religião, ou para o governo, ou para as corporações, sou tomado pela sensação avassaladora de que estamos tentando operar nossa sociedade com código obsoleto, com software — e não me refiro apenas ao software de nossos computadores, mas também ao nosso software social — com softwares que são basicamente sistemas legados de legados que nem sequer lembramos mais, e que são completamente inadequados para o que queremos realizar.
Se não conseguirmos entender esses programas, os programas em nossos computadores, neste ambiente digital em que passamos grande parte do nosso tempo, então não temos a menor chance de sequer reconhecer que existem aqueles outros programas [o software social]. Esses programas são construídos sobre o software antigo. Este método favorece que o software antigo siga funcionando. Estes softwares são implementados na economia. São implementados no sistema bancário central. São implementados sobre nossas estruturas governamentais atuais. E se não conseguirmos entender esses programas, nunca enxergaremos como todo este arranjo de fato funciona.
Eu busquei descobrir o quanto disso tudo é viés desse ambiente digital — em outras palavras, o fato de estarmos em um meio binário, um meio discreto de mais ou menos, no qual você sempre tem que fazer uma escolha binária — em comparação com uma realidade analógica que tem muitas cores e coisas diferentes. Quanto disso é viés do meio digital e o quanto é viés das pessoas que programaram esse meio para nós, que programaram nossa tecnologia para nós? E como podemos saber qual é qual? Como podemos diferenciá-los?
Acredito que não saberemos até entendermos como nossas tecnologias funcionam e como elas atuam sobre nós. Acredito que, se você não é um programador, você é um dos programados. É simples assim. Você deixa de ser um ator passivo, quase um ouvinte do jogo — nem isso, apenas uma pessoa que está no jogo, que nem conhece as regras, não sabe o que pode ser burlado e o que não pode — para se tornar alguém que pode hackear o programa, que pode ser um criador, um escritor, para se tornar um PROGRAMADOR.
Essas são as etapas pelas quais nossa civilização passou em sucessivas fases da mídia. Passamos de pessoas que simplesmente viviam em um mundo com regras que nem sequer conhecíamos. “Talvez chova, talvez não. Talvez se eu sacrificar meu filho a Molok, eu consiga uma boa colheita este ano, talvez não”. Pessoas simplesmente tentando encontrar alguma previsibilidade aleatoriamente.
E então, temos o TEXTO, certo? Temos o alfabeto de 22 letras. Agora, em vez de depender de sacerdotes para ler tudo para nós em hieróglifos, agora podemos criar nossas próprias palavras. Depois, temos a IMPRENSA, que em teoria nos permite, em vez de depender de alguns escribas, que qualquer pessoa possa escrever. E então temos o COMPUTADOR, que, é claro, agora permite que qualquer um programe a realidade. Mas não foi isso que realmente aconteceu. Temos o texto. Temos um alfabeto de 22 letras. E que tipo de sociedade resultou disso? Um grupo de israelitas que vai à praça da cidade e ouve o rabino ler a Torá para eles.

oferece suas ideias e perspectivas sobre um possível papel da humanidade em um futuro promissor.
Então, desenvolvemos a capacidade de ler e/ou a tecnologia da leitura. E que capacidade adquirimos? A capacidade da geração anterior. Adquirimos a imprensa. Todos se tornam escritores? Não. Conquistamos uma civilização de leitores e uma elite de escritores. E agora que temos o computador, desenvolvemos uma nação de programadores? Não! Temos uma nação de blogueiros [“influencers”], né? Agora temos a grande capacidade de escrever [publicar online], mas não sabemos programar. Escrevemos na caixa de texto que o Google nos dá.
Meu problema é que, a cada etapa, quando adquirimos um novo meio de comunicação, a civilização parece estar um estágio atrás, uma geração, uma iteração atrás do meio que está usando. Uma elite, talvez uma nova elite, aprende a realmente usar a ferramenta. E esta é maior. A programação é ainda maior, eu diria, do que a imprensa. É tão grande quanto o texto. O texto nos deu o judaísmo. A imprensa nos deu o protestantismo. O que esta nova tecnologia nos dá?
Acho importante, talvez menos para as pessoas nesta sala do que para as pessoas que não estão nesta sala ou que nem sabem da existência desta sala, ser capaz de lidar com os vieses do ambiente digital, saber que existem vieses, ser capaz de fazer escolhas conscientes sobre o que usam e o que não usam. Então, acho que é nossa responsabilidade falar sobre isso de uma forma que as pessoas entendam. As coisas que podemos entender intuitivamente, como: “Ah, a Apple vai criar uma nova estrutura de arquivos onde não haverá mais arquivos e tudo fará parte de um grande banco de dados.” Bem, todos nesta sala saberiam: “Meu Deus, se todos os seus arquivos estiverem em algo que não tem mais arquivos, agora você ficará preso a esse software e tudo mais, certo? Porque você não poderá tirar seus arquivos da máquina.” Mas outras pessoas não pensam dessa forma porque não entendem a tecnologia como algo que possui vieses.
É um momento incrível em que podemos começar a programar o dinheiro, programar a sociedade, certo? Mas para isso, precisamos entender tanto os programas que usamos quanto os meios, os códigos com os quais trabalhamos, os símbolos e como nos relacionamos com eles. Se não criarmos uma sociedade que ao menos saiba que existe algo chamado programação, acabaremos sendo não os programadores, mas os usuários e, pior, os usados.”
Contextualização do blogueiro (update: 27/12/2025)

O post original no blospot (acima) destacava que estávamos na semana da 11ª edição do Fórum Internacional de Software Livre em Porto Alegre. Vivíamos no Brasil, talvez, o momento de maior otimismo em relação à internet como possibilidade de democratização. O MinC de Juca Ferreira promovia a realização do Forum da Cultura Digital Brasileira na rede social CulturaDigital.br, onde além dos debates públicos nos eixos para a construção de políticas públicas para o campo, se construia de forma aberta e colaborativa o texto inicial do que viria a se tornar o Marco Civil da Internet. Na edição anterior do FISL, o presidente Lula, havia utilizado uma analogia culinária para declarar que o seu governo havia feito a opção pelo software livre:
Eu lembro da primeira reunião que nós tivemos na Granja do Torto, em que eu não entendia absolutamente nada da linguagem que esse pessoal discutia, sabe? E houve uma tensão imensa entre aqueles que defendiam a adoção do Brasil do software livre e aqueles que achavam que nós deveríamos fazer a mesmice de sempre, né? Ficar do mesmo jeito, sabe, comprando e pagando a inteligência dos outros. E graças a Deus prevaleceu no nosso país a questão e a decisão do software livre. Porque nós tínhamos que escolher: ou nós íamos para a cozinha preparar o prato que nós queríamos comer, com os temperos que nós queríamos colocar e dar um gosto brasileiro na comida, ou nós iríamos comer aquilo que a Microsoft queria vender para a gente.
Entretanto, neste mesmo ano de 2010 já estavam sendo estabelecidas as bases para a tomada de assalto da rede aberta pelos monopólios da tecnologia. Porque não seguimos pelo caminho que havíamos formulado, e para onde estávamos apontando? O protagonismo do movimento “Cultura Digital” brasileiro, a meu ver, tinha como fundamento a compreensão de que a cultura era a chave adequada para o entendimento da potência política do ambiente digital, e não à toa o MinC de Gil e Juca despontava internacionalmente. Como retomar este movimento?



